Riem da vida boa que o dinheiro público proporciona a toda uma família cuja produtividade sempre pareceu ser um conceito abstrato. Industriais? Escritores? Cantores? Advogados conceituados? Não. Nenhuma dessas trivialidades.
Os filhos tampouco seguiram o pai na carreira militar. Talvez tenham refletido e concluído que, se o patriarca conseguiu a proeza de ser expulso do Exército ainda como um medíocre capitão, talvez não houvesse ali uma tradição familiar de talentos militares a ser preservada.
Se faltava vocação para a disciplina, sobrava aptidão para algo muito mais lucrativo: a política. E ali descobriram uma mina de ouro inesgotável, onde os que dominam a arte de simplificar o mundo em slogans, transformar boatos em verdades convenientes e espalhar indignação industrializada conseguem prosperar magnificamente.
Na era digital, nunca foi tão fácil transformar desinformação em capital político. As urnas, afinal, são férteis quando irrigadas diariamente por rios de mensagens, vídeos recortados e indignação cuidadosamente fabricada.
Assim, pai e filhos, todos convenientemente pendurados em cargos públicos financiados pelos impostos do trabalhador, vivem, e provavelmente morrerão, nessa gargalhada permanente proporcionada pelo dinheiro fácil. Dinheiro que só deixa de ser fácil quando surge o inconveniente problema logístico de armazená-lo.
E foi justamente diante desse desafio técnico que surgiu talvez uma das raras contribuições verdadeiramente inovadoras do patriarca ao país.
Preocupado com o desconforto físico de transportar milhões em notas de cem reais, rapidamente surgiu a solução: ordenar ao Banco Central a criação da nota de duzentos. Um gesto visionário. Se antes dois milhões exigiam duas malas, agora podem caber confortavelmente em apenas uma. Eficiência administrativa em seu estado mais puro.
Só faltou ordenar que a nova cédula trouxesse o próprio rosto estampado, eternizando o legado do homem que compreendeu, talvez antes de todos, a importância de facilitar a vida de sonegadores, operadores informais, colecionadores de dinheiro vivo e demais entusiastas da circulação monetária sem rastros bancários.
Mas a alegria familiar vai além das facilidades financeiras.
O patriarca, agora recolhido ao conforto doméstico como um autoproclamado mártir da causa patriótica, desfruta de uma rotina quase monárquica. Equipes médicas à disposição, visitas constantes e pronta assistência caso surja qualquer emergência — inclusive crises de soluços, condição raríssima e gravíssima cujo sofrimento, somos informados, ultrapassa qualquer compreensão humana comum.
Entre uma consulta médica e outra, resta o consolo de saber que o contribuinte permanece firme, trabalhando para garantir que nenhum sacrifício precise ser feito.
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