O desconhecido chegou, mas já é hora de ir embora, e levar consigo a ideia de parlamentarismo no Brasil
Augusto Cury, lanterninha que de repente virou “terceira via” com 11% nas intenções de voto (pesquisa Nexus/BTG de 31 de agosto de 2026), chegou não se sabe bem como. Com ideias estrambólicas, robôs para “tampar o rombo” da Previdência, Ministério da IA e Robótica enquanto promete cortar ministérios, taxação de bets como solução mágica, mostra-se mais aventureiro a procura de brincar de presidente do que estadista. Mas, de tudo o que soltou em sabatinas e entrevistas recentes, o que de fato enterrou qualquer pretensão de seriedade foi a proposta, dita na cara dura, de implantar o parlamentarismo (ou semi-presidencialismo) no Brasil.
Segundo ele, o presidencialismo é uma “chaga”. O Brasil já viveria um “parlamentarismo de fato” porque o Congresso domina o orçamento via emendas. Então, que se formalize: um primeiro-ministro chancelado pelo Parlamento, que “cai” se for impopular, corrupto ou ineficiente. Que fofo. Como se o problema do país fosse a falta de poder do Legislativo, e não o excesso dele.
Ora, se de tudo o que é podre e malversado no Brasil contemporâneo vem justamente de um presidencialismo que na prática já é um semi-presidencialismo, porque o Legislativo federal extrapola em muito sua competência de legislar e fiscalizar, imagine o que seria entregar o comando pleno do Executivo a esse mesmo Parlamento. Nosso Legislativo federal sempre foi exemplo de corporativismo, clientelismo e absoluta falta de responsabilidade com a coisa pública. As emendas parlamentares já alocam dezenas de bilhões de reais anualmente (mais de R$ 50 bilhões em 2025, com previsão de ultrapassar R$ 60 bilhões em 2026) para “projetos” duvidosos, prefeituras de conchavo e bases eleitorais. Que festa seria se esse parlamento repleto de ratos tivesse total poder sobre o orçamento federal e a escolha do chefe de governo.
Não há como comparar um parlamentarismo sério e tradicional da Inglaterra ou da França com o nível médio de deputados que temos na Câmara. Que circo do horror seria colocar Magno Malta, Carlos Jordy, Tiririca e tantos outros “palhaços” a serviço de qualquer coisa, menos dos interesses nacionais, no centro do poder executivo? Não é normal, e nunca foi aceitável, que na Câmara Federal tenhamos algo em torno de 111 deputados (cerca de 21,6% do total de 513) respondendo a processos penais no STF e em outras instâncias, segundo levantamentos de 2024/2025. Crimes que vão de corrupção e organização criminosa a violência contra mulheres e atos antidemocráticos. No Senado, a proporção também é alarmante.
O número exagerado de partidos, ainda perto de 30 registrados, com dezenas de legendas inexpressivas que ocupam cadeiras sem contribuir para o debate nacional, só agrava o quadro. Essas siglas anãs servem de cabide, de moeda de troca e de porta de entrada para interesses particulares. Cury, meu amigo, se você até hoje não percebeu que o que mais atrasa o país é justamente esse Legislativo que domina a cena (e que já transforma emendas em instrumento de barganha, superfaturamento e desvio), então você quer fazer parte deste atraso e empurrar de vez o Brasil para o mais profundo dos poços.
Os escândalos recentes ilustram o óbvio. A Polícia Federal desmantelou esquemas que usavam emendas para fraudar licitações e superfaturar obras em dezenas de municípios, com organizações criminosas movimentando centenas de milhões (e até bilhões em contratos ao longo dos anos). Operações como a Overclean revelaram asfalto que “desmancha na mão”, obras fantasmas, propinas e até malas de dinheiro jogadas pela janela. Familiares de parlamentares, assessores ligados a ex-presidentes da Câmara, líderes partidários, o rastro do dinheiro das emendas leva a Brasília com frequência constrangedora. Investigações envolvendo indicações irregulares de emendas por figuras como Valdemar Costa Neto e Eduardo Cunha, “emendas-bolsão” que fragmentam recursos para burlar regras do STF, e a velha falta de transparência (mesmo após decisões judiciais) mostram que o “parlamentarismo de fato” que Cury celebra já é uma máquina de captura do Estado.
Entregar a esse Congresso o poder de escolher e derrubar o primeiro-ministro seria transformar a farra atual em sistema oficial. Em vez de um presidente eleito pelo povo (com todos os defeitos do modelo), teríamos governos formados por conchavos permanentes, coalizões fluidas e chantagens orçamentárias ainda mais sofisticadas. O “ele cai se for corrupto” soaria engraçado se não fosse trágico: quantos já caíram de fato por corrupção neste Parlamento? A resposta, historicamente, é “quase nenhum”.
Cury gosta de citar que 19 dos 20 países mais desenvolvidos seriam parlamentaristas ou semi-presidencialistas. Esquece, convenientemente, o contexto institucional, a cultura política, o nível de accountability e a qualidade média da representação. No Brasil, o que temos é um Congresso que já concentra poder demais sem a correspondente responsabilidade. Formalizar isso não é modernizar, é aprofundar o atraso.
O desconhecido chegou, ganhou 11% e já se sentiu no direito de redesenhar o sistema político. Melhor que vá embora logo, levando a proposta consigo. Porque parlamentarismo no Brasil, com esse Parlamento, não seria solução. Seria a consagração do problema.

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