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| Kassio Nunes e Flávio Bolsonaro |
Há cargos que se conquistam por mérito, estudo e aprovação em concursos públicos rigorosos. E há carreiras que se constroem por indicações, amizades e trocas de favores. Kassio Nunes Marques, ministro do STF e atual presidente do Tribunal Superior Eleitoral, pertence claramente à segunda categoria. E isso, nas vésperas de uma eleição presidencial em que o filho de seu padrinho político é candidato, não é detalhe menor: é um risco institucional concreto.
Kassio nunca prestou um único concurso público para a magistratura ao longo de toda a sua trajetória. Formou-se em Direito, atuou como advogado, ocupou cargos na OAB do Piauí e, a partir daí, subiu exclusivamente por indicação. Foi nomeado para o Tribunal Regional Eleitoral do Piauí em períodos de governo Lula. Depois, chegou ao Tribunal Regional Federal da 1ª Região pelo quinto constitucional, a vaga reservada a advogados, por indicação de Dilma Rousseff. E, finalmente, em 2020, foi escolhido por Jair Bolsonaro para o Supremo Tribunal Federal. Não se sabe exatamente como o então presidente o “descobriu”, mas o padrão é claro: alguém que nunca precisou provar competência técnica em concurso aberto, sempre dependente de quem o empurrava para cima.
Esse tipo de trajetória costuma gerar um tipo específico de lealdade. Não a lealdade à Constituição ou à imparcialidade, mas a lealdade ao padrinho e ao grupo que abriu as portas. E a história de Kassio no STF e no TSE confirma o padrão. Em processos que envolviam direta ou indiretamente a família Bolsonaro e seus aliados mais próximos, ele invariavelmente encontrava razões para decidir de forma a beneficiá-los ou, no mínimo, a dificultar decisões desfavoráveis. Mesmo quando o restante da Corte caminhava em sentido contrário, Kassio destoava. Votou contra a inelegibilidade de Bolsonaro no julgamento do TSE sobre o encontro com embaixadores. Em decisões monocráticas e votos isolados, repetiu a mesma lógica: proteger o grupo que o elevou.
Agora ele preside o TSE. Mais uma vez, chegou ao posto não por desempenho excepcional ou reconhecimento técnico inequívoco, mas pelos ritos de antiguidade e pela composição política da Corte. E as eleições de 2026 estão sob sua responsabilidade. O filho de Bolsonaro, Flávio, é pré-candidato à Presidência. O bolsonarismo, desde 2018, nunca aceitou de fato o resultado das urnas eletrônicas. Não porque tenha apresentado prova técnica de fraude sistemática — nunca apresentou —, mas porque o questionamento permanente das instituições é a única estratégia restante quando as pesquisas e os resultados não colaboram. Criar tumulto, espalhar desconfiança, acionar o “tapetão” e esperar que alguém no sistema judiciário eleitoral acate a narrativa.
Com Kassio na presidência do TSE, o risco deixa de ser hipotético. Ele já deu sinais recentes de disposição para decisões monocráticas que favorecem interesses eleitorais do grupo. A mesma lógica que o guiou em processos anteriores — a lealdade ao compromisso assumido em troca da cadeira — agora opera no órgão que organiza, fiscaliza e julga as eleições. O bolsonarismo vai produzir, como sempre produziu, uma avalanche de alegações sem lastro, de “provas” fabricadas, de narrativas de fraude. A diferença é que, desta vez, há um ministro na linha de frente do TSE cuja biografia e cuja história de votos sugerem que ele pode estar mais inclinado a acolher do que a rejeitar essas sandices.
Não se trata de adivinhar o futuro. Trata-se de observar o padrão. Quem nunca precisou enfrentar um concurso, quem subiu sempre por indicação e quem, uma vez no topo, sistematicamente protegeu o grupo que o indicou, não se transforma, de repente, em guardião isento da lisura eleitoral. Kassio Nunes Marques não é um juiz técnico que chegou ao cargo pelo mérito puro. É o produto de uma cultura de indicação e de troca. E agora, com o filho do padrinho na disputa e a máquina de desinformação bolsonarista a todo vapor, ele está exatamente no lugar onde pode causar mais dano.As eleições de 2026 precisam de um TSE firme, técnico e impermeável a pressões de qualquer lado. O que temos, no comando, é alguém cuja carreira inteira grita o contrário. Guardem essas palavras: Kassio vai aprontar. Não porque seja um gênio do mal, mas porque é coerente consigo mesmo. E essa coerência, neste momento, é o verdadeiro perigo.

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