A Polícia Federal cansou de engolir calado. Na última semana, acionou a AGU contra as medidas do ministro André Mendonça que transformaram o inquérito das fraudes do INSS num processo sob vigilância permanente do gabinete dele. Todos os atos da apuração devem ir direto para as mãos do ministro. Qualquer troca de investigador precisa de aviso prévio. Em bom português: intromissão grosseira na gestão da corporação e sinal explícito de desconfiança seletiva.
Mendonça, relator do caso que envolve Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, já tinha exigido que a PF terminasse a análise de cerca de 1.700 itens apreendidos em 60 dias. A polícia respondeu com a realidade: 11 investigadores, quando seriam necessários mais de 40, e o trabalho ainda no começo. O ministro, irritado com as mudanças de coordenação, mandou manter a equipe e justificar qualquer alteração. Enquanto isso, a operação Compliance Zero, mais recente, andava em ritmo bem mais acelerado. Coincidência?
Investigadores que acompanham o caso não engolem a seletividade. Pedidos de quebra de sigilo ou bloqueio de bens feitos pela PF não têm a mesma velocidade de análise no gabinete de Mendonça. Depende de quem é o alvo. Quando o foco ameaça se aproximar de nomes ligados ao bolsonarismo, o relógio parece andar mais devagar. Quando o filho do presidente está na mira, a pressa vira ordem judicial.
Não se trata de um juiz isento. André Mendonça é indicação direta de Jair Bolsonaro, o mesmo que está preso por tentativa de golpe de Estado. Há tempo ele marcha lado a lado com Kassio Nunes Marques, outro ministro colocado no Supremo pelo mesmo presidente. As decisões que os dois proferem, em mais de uma ocasião, acabam protegendo ou diluindo o alcance das investigações que poderiam atingir quem os colocou lá. Não é coincidência. É padrão.
A PF não está pedindo favores. Está tentando defender a autonomia mínima para investigar um esquema bilionário de descontos indevidos no INSS sem ter o gabinete de um ministro bolsonarista ditando o ritmo e a composição da equipe. Mendonça, ao invés de formalizar qualquer suspeita de parcialidade no processo, prefere amarrar a polícia com determinações que cheiram a controle político.
O Supremo não é extensão de gabinete de indicação. E a Polícia Federal não é departamento de assessoria de ministro. Quando o relator só aperta o acelerador conforme o sobrenome do investigado, o que se vê não é justiça. É seletividade disfarçada de rigor.
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